Sétima arte #22: O quarto de Jack

 

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Título original: Room
Ano de lançamento: 2015
Direção de: Lenny Abrahamson
Roteiro de: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers.
Gênero: Drama
Duração: 1h 57min

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Sinopse: O quarto de Jack (Room) é baseado no livro de mesmo nome da escritora irlandesa Emma Donoghue, e narra a história de Jack e Joy, que vivem em um quarto de dez metros quadrados. O filme é narrado pela visão (limitada) de Jack, que conta a história como um grande conto de fadas. Mas, a verdade guarda uma realidade mais cruel do parece: aquele quarto de Jack é a prisão de Joy.

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Trailer legendado de O Quarto de Jack

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        O amor pode doer. O amor pode doer às vezes. Mas é a única coisa que eu sei. Quando fica difícil – você sabe que pode ficar difícil algumas vezes. É a única coisa que nos faz sentir vivo. Por mais que eu quisesse ter pensado nessas palavras, alguém pensou antes de mim e transformou em música. Essa música se chama Photograph, do Ed Sheeran, e quando parei para escrever sobre O quarto de Jack, coloquei a música em um loop eterno. E, em determinado momento, palavras e melodia se casaram, e eu percebi que essa música tem uma ligação fortíssima com o filme, mesmo que seja de uma forma totalmente despretensiosa.  A música, obviamente, fala de amor. Entretanto, não é o tipo de amor que normalmente sentimos; aquele em que amamos o sentimento. A música fala de amar uma pessoa. Amar uma pessoa é superar. Amar é superar, no presente, cada pequena dificuldade que enfrentamos – e, meu Deus, como nós enfrentamos. O amor nos dá força para arrancar uma coragem que parecia inanimada lá no fundo, e que nós nem sabíamos que existia. O cerne d’O quarto de Jack é esse amor natural e inocente, mas, às vezes, brutal.

        Por vezes eu tentei achar palavras para descrever O quarto de Jack, mas o que posso dizer de mais honesto é que esse é um dos filmes mais bonitos e sinceros não só desse ano que passou, mas que há muito tempo não se vê. Além de surpreender, o filme mexe com algo mais profundo do que parece: nós precisamos de alguém que segure firme nossa mão e que esteja preparado para nos tirar do nosso quarto – mesmo que essa pessoa seja uma criança – e aguentar os flagelos que nos atingem impiedosamente a cada segundo.

        O filme começa com o aniversário de cinco anos de Jack, que vive com sua mãe Joy em um quarto de dez metros quadrados. O único vestígio para o mundo exterior é através de uma claraboia que fica no meio do quarto. Joy, que foi sequestrada aos 17 anos, teve que criar Jack dentro do quarto e criar um mundo totalmente diferente, pintado de cor-de-rosa, para ele. Mas, tudo isso muda quando Jack tem que conhecer o verdadeiro mundo para ajudar a sua mãe a fugir.

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        Quando o filme parece seguir o caminho mais óbvio (focar no sofrimento do sequestro e girar em torno da fuga dos dois), a história segue um rumo totalmente diferente, que revigora mais ainda a mensagem do amor entre mãe e filho e da superação. Muitas vezes, parecia que eu não estava vendo a um filme, mas a um fragmento da vida que passava pelos meus olhos sem querer, de tão singular e honesto que o filme é. É algo que vai além de uma tela de cinema. Passeia-se por uma linha tênue entre a narrativa branda, como a inocência de uma criança; e a brutal, como é a realidade na sua forma mais sórdida. 

        Pessoalmente, acredito que o filme é dividido em duas partes: antes da fuga e depois da fuga. O filme não gira em torna da desgraça do cativeiro, mas do que acontece depois. E é nesse momento que o filme ganha mais força e mostra a dificuldade dos dois de se acomodarem na vida fora do quarto – especialmente para Jack, que precisa desconstruir o seu castelo de cristal e enxergar o mundo real – o que torna o filme mais desesperador, pois, nós espectadores, estamos acostumados com a velha fórmula do “felizes para sempre”. Nunca com um depois disso.

        O filme está indicado a quatro prêmios no Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor atriz e melhor roteiro adaptado. Com uma atuação sensível e muitas vezes ríspida – como o próprio filme exigia –, Brie Larson é a aposta mais certeira de levar o prêmio de melhor atriz. Mas, não podemos esquecer que na maior parte do filme quem rouba a cena é o ator Jacob Tremblay.  E por mais que a história em si seja vendida sem muito esforço, a química entre Brie e Jacob é o que mais cativa.

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       O quarto de Jack vai muito além do que se propõe. O filme é uma metáfora para os nossos próprios quartos internos. O quarto de Jack passa uma mensagem clara de superação, mas, acima de tudo isso, é uma metáfora para os momentos em que nós nos sentimos retraídos, deprimidos, e, muitas vezes, sozinhos. Criamos nosso próprio mundo e vivemos nele, porque lá ninguém vai nos machucar. Vivemos no nosso planeta de faz de conta, sempre recriando o que vemos, transformando imagens cruéis em eufemismo. Porém, sempre precisamos lembrar que existem pessoas que estão ao nosso lado, prontos para nos tirar do quarto, e, por mais que doa sair desse terreno confortável, é sempre importante estar pronto para pular fora do quarto e observar o quanto o mundo é grande, o quanto as coisas são frágeis, e o quanto nós precisamos aproveitar da melhor forma essas pessoas e esse mundo. E tudo através do amor, a única matéria prima inesgotável.

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assinatura maria

Comentários

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2 Comments

  1. Oi, Maria!
    Caramba, nunca tinha ouvido falar nesse filme mas agora lendo o que você escreveu, parece que ele foi feito para mim!
    Sério, isso dos quartos interiores é muito minha cara, e na verdade eu praticamente vivo dentro de um quarto. É excelente e péssimo ao mesmo tempo. Não sei explicar. Sei que em breve terá um lindo bebê aqui comigo que vai me obrigar a sair dele, que vai me obrigar a encarar muitas coisas.
    Vou procurar assistir esse filme, com certeza. Excelente indicação!

    Beijos,
    Duas Leitoras

    • Kemmy, fico muito feliz com o seu comentário sobre o texto! Espero que curta o filme como eu curti. Depois me fala o que achou dele! Muito grata! Beijão!

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