Boyhood – Da infância à juventude: Por uma vida mais ordinária

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Título original: Boyhood
Ano de lançamento: 2014
Diretor: Richard Linklater
Elenco: Ellar Coltrane, Lorelei Linklater, Patricia Arquette e Ethan Hawke.
Gênero/Duração: Drama; 165 minutos.
 

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Trailer Legendado

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No ano de 2014, Boyhood foi o filme que mais foi comentado em todos os lugares devido à sua famigerada produção: doze anos (de escravidão) para gravar o filme (o tanto de tempo que levei para escrever esta resenha). Porém, como nem tudo são flores, o filme que levou doze anos para ser finalizado despertou um sentimento dúbio no público: De um lado, o filme é apático, sem história nem roteiro bem definidos, tudo muito água com açúcar (o famoso “boringhood”); de outro, o filme é uma obra-prima contemporânea, com certeza, o melhor filme de 2014 e etc.

Bem, o filme acompanha a trajetória de Mason dos seis aos dezoito anos. Com Yellow, do Coldplay, a história começa a se desenrolar com Mason deitado na grama olhando para as nuvens, pensativo, e Olívia indo o buscar na escola. A partir daí acompanha-se o crescimento e as mudanças de todos os membros da família: Mason Jr. (Ellar Coltrane), Samantha (Lorelei Linklater), Olívia “Liv” (Patrícia Arquette) e Sr Mason. (Ethan Hawkes); mas, sempre com o foco no personagem de Mason, que passa por diversas fases, sempre em busca de um “eu” ou do sonhado “lugar ao sol” que a mãe tanto o incentiva a perseguir.

Richard Linklater, diretor de Boyhood, em uma das entrevistas que concedeu, tentou explicar o conceito de Boyhood: É um projeto que ambiciona mostrar todas as pequenas mudanças que se atravessa durante a vida. Ora, a intenção do filme é mostrar como a vida é: uma série de momentos triviais sem focar exatamente em um assunto específico, visto que, o que interessa é a amplitude e imensidão da vida. Em algum momento há uma identificação com os milhares de temas que surgem em Boyhood: seja com a mudança de cidade, o primeiro dia em uma escola nova, o primeiro amor, a descoberta da sexualidade, alcoolismo, drogas, abuso doméstico, a disputa da atenção do pai ausente, a busca de algum lugar no mundo e etc. É a vida crua, sem floreios. De fato, não se trabalha com filmes dessa maneira.

Linklater optou por contar a história através do tempo: a memória é o trunfo do filme, que irá atingir, principalmente, a geração que cresceu com: Harry Potter, Dragon Ball Z, High School Musical, a música pop dos anos 2000 e etc. O filme perpassa, em cada ano, os eixos culturais, políticos e sociais que mais se destacaram, reafirmando mais o seu caráter de obra-prima e a visão inovadora do Richard Linklater em registrar os acontecimentos de cada ano e deixa-los marcados como em um álbum.

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Os diálogos dos personagens são extremamente naturais. Se você espera alguma cena em que os atores choram exageradamente, secando todo o estoque do canal lacrimal, então, talvez, Boyhood não seja o seu tipo de filme. A história traz a sutileza da vida ordinária. Então eu digo: se piscar os olhos, você entrará em Boyhood. Você, de repente, será Mason por que em algum momento da vida passa-se pela juventude e consequentemente por essas mudanças necessárias da busca pela essência. Também não há de se esperar uma reviravolta mirabolante e planos bem orquestrados como em Garota Exemplar. É a expectativa de uma vida que deve ser levada, mesmo que insatisfatoriamente: a infância, a juventude e o final dessa juventude marcada pelo início de uma fase adulta cheia de responsabilidades e falsas liberdades. Sem grandes surpresas.

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A atuação da Patricia Arquette foi a que mais me tocou; ela é o porto seguro dos filhos, a mulher sólida que atravessa um furacão, mas precisa estar de volta, inteira, porque agora ela não é mais “a filha de alguém e sim a mãe de alguém”. E essa responsabilidade que pesa nos ombros de Olívia, não pesa tanto nos ombros do pai, Mason (Ethan Hawke). Ao contrário da mãe, o pai é ausente e imaturo. Enquanto a mãe representa a solidez, o pai representa a liquidez. Talvez o maior símbolo que represente o pai é o carro: o carro que está sempre se deslocando em nenhuma direção; o carro que é cool demais para ter cinto, para ter alguma segurança.

A sensação é que o tempo passa rápido e como em um piscar de olhos já se tem que abandonar o ninho e arcar com responsabilidades e dores que antes eram mascaradas pela inocência da infância ou pela insensatez da juventude. Agora, mais do que a eterna busca do “quem sou eu?” ou “o que eu quero?”, uma vida começa a ganhar cor e um novo mundo brota da terra, abrindo portas e janelas, alguns jardins com espinhos e outros com rosas. E esses momentos vão desaparecendo como fumaça. E só há um jeito de voltar a esses momentos: através de fotografias e da memória. O tempo é o nosso marco-zero, é ali que podemos saber quem nós somos ou para onde iremos. O tempo é um general que manda e desmanda e nós apenas temos que o seguir com a calma de gravar um filme durante doze anos.

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Boyhood faz um pedido velado: estude os pequenos momentos da vida; a partir de agora, passe a olhar mais a sua volta, passe a aproveitar determinados momentos da sua vida e prestar mais atenção a esses instantes mais íntimos. Boyhood – Da infância à juventude é a celebração da vida ordinária, da balada do homem comum, de todas as trivialidades que percorrem as calçadas das nossas vidas e que não paramos para absorvê-las, apenas as pisamos friamente.  Talvez, por isso, o filme incomoda tanto: a repulsa que a normalidade produz; a vida insípida, onde nada realmente acontece. Vivemos nesse ambiente estático; e ir para o cinema e passar quase três horas vendo a vida como ela é incomoda, e muito; mexe em algo que estava dormindo há tempos dentro de nós: por isso que Boyhood é o melhor filme de 2014: pela coragem de mostrar a vida crua e ordinária, sem histórias mirabolantes ou dramas no espaço: Boyhood é, como diria Nelson Rodrigues, A Vida como Ela é

 

Caso vocês tenham interesse na música que toca no trailer: é da banda Family of the year e o nome da música é Hero:

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assinatura maria

 

Comentários

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Um Comentário

  1. Ansioso para ver! Obrigado pela resenha.

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