Sétima arte #16: Ela (Her)

Ficha Técnica:

Filme: Ela (Título original: Her)
Ano de lançamento: 2013
Direção de Spike Jonze
Roteiro de Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Scarlett Johansson e Chris Pratt.
Duração/Gênero: 126 minutos/ Drama; Romance; Ficção científica.

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Sinopse: Em um futuro distante, Theodore é um escritor de cartas, solitário, que acaba de adquirir um novo sistema operacional chamado Samantha. Ela mostra a relação incomum entre o homem contemporâneo que acaba se apaixonando pela sua máquina.

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Um artista francês, chamado Jean Jullien, criou uma série de ilustrações que aborda a relação mais duradoura dos últimos tempos: o homem e a tecnologia (para quem quiser dar uma olhadinha na série que se chama “Allo”, aqui vai o link de um site que tem: http://misturaurbana.com/2013/12/a-relacao-homem-x-tecnologia-em-ilustracoes/).

Eu peguei só uma imagem que eu achei conivente com Ela, que foi essa daqui:

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Eu assisti a Ela há quase um mês atrás e logo escrevi vários comentários avulsos sobre os temas que o filme aborda (amor, relacionamento, tecnologia e etecetera) e percebi que seria impossível escrever sobre todos sem me tornar exaustiva ou até mesmo caótica. Então, tentei criar uma cena para introduzir o filme: você está sentada/sentado em uma cafeteria lendo um jornal e inesperadamente alguém senta ao seu lado e inicia uma conversa como se já o conhecesse há um bom tempo. É bem provável que você estranhe e até ache engraçado, e depois de alguns minutos o estranhamento dê lugar à excitação e ao entusiasmo do flerte de uma conversa fluída; afinal, quem não gosta de conversar com alguém que entende todas nossas nuances perfeitamente? Pois bem, essa cena é o que acontece quando Theodore (Joaquin Phoenix) adere a um novo sistema operacional chamado Samantha (Scarlet Johansson). O estranhamento que nos causa é porque, apesar de vivermos em uma época em que a cada dia a tecnologia avança com uma fugacidade voraz e nem um pouco tácita, o romance que se desenrola em Ela é entre um homem e uma máquina, entre o ser humano que deveras sente e a máquina que é gerida para sentir. Mas, ao longo do filme o estranhamento dá lugar à excitação e a descoberta de novos sentimentos: tanto de Theodore quanto de Samantha, que descobre sentimentos além dos que foram projetados.

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Quando descobri Ela pensei que o filme fosse um drama que veste uma capa de comédia, e assumo que de fato não tive interesse em assisti-lo. Mas, depois de algum tempo, cedi e fui assistir e logo de início o filme já quebrou a minha expectativa, só que de uma forma positiva. Ela é como se fosse uma bola de cristal na qual passamos duas horas assistindo o caminho que a humanidade está fazendo para o amor na era moderna. Os primeiros momentos são passagens da vida de Theodore, da normalidade da sua rotina, mas com um olhar enviesado de Spike jonze que mostra a poeticidade da rotina de um escritor solitário que acaba de sair de um casamento traumático e falido e engata um romance incomum. Dizendo assim, talvez nem dê para imaginar como deve ser namorar um sistema operacional: confesso (de novo) que fiquei angustiada com a relação proposta por Spike Jonze.

Esse relacionamento entre o homem e a máquina em Ela é o âmago desse sentimento tão complexo e explorado e que nunca há, definitivamente, uma resposta: o que é o amor? Recentemente comecei a leitura de um livro chamado Cenas de amor perdido e lá para as tantas, em um diálogo puxadíssimo, os dois personagens da narrativa estabelecem o que, na visão deles, vem a ser o amor:

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(…)
– Amor é incondicional, dizíamos.
– Incondicional e total. Não é o oposto de ódio – aliás, não tem opostos –, não reconhece conflitos, não se prende ao passado, não se estende ao futuro: acha-se sempre no agora.
– Isso nos lembra o quê?
– Que o tempo não vai além de convenção, mera e reles invenção do homem.
– Amor, portanto, é universal.
– Universal, sim, pois jamais estabelece vínculos, nem laços, nem primazia. Amor – repito – exclui adjetivos, em particular um – especial.
(…)

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Theodore começa o relacionamento com Samantha ainda tentando sarar as cicatrizes de um relacionamento tortuoso e melancólico. Mas, durante o passar do tempo, o que era um relacionamento incomum e excitante vai se tornando mais palpável e real. E esse real é que muda o curso dos acontecimentos de uma vida a dois, as cicatrizes saram para que novas possam tomar o lugar das antigas.

Nós passamos por tantas coisas e pessoas que às vezes deixamos e levamos algumas coisas: deixamos pedaços dos nossos corações ou de alguma coisa que preenche o nosso vazio, mas que por tantas decepções acabamos perdendo esse revestimento, deixando exposta a nossa maior fraqueza e consequentemente o nosso maior medo: a solidão. A solidão de perder alguém de quem se ama, a solidão de deitar em uma cama vazia e ter que preenche-la com travesseiros e sonhos insuficientes para mascarar a realidade. E o que levamos é o próprio vazio, o vazio de algo que antes era colorido e festivo e agora se transformou em um quarto cinzento, cheio de memórias que a cada vez que voltam, são sentidas como um punho fechado, bem no meio do rosto, deixando o sangue jorrar livremente sem previsão de estancar. Ela é sem dúvida uma obra prima contemporânea, que mostra a angústia, a dúvida e o medo nos diversos tipos de relacionamentos, de uma forma sutil, satírica e poética criando reflexões sobre tudo o que nos cerca.

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Mesmo em um mundo onde a tecnologia reclama todos os seres e os afastam de sentimentos reais e cara a cara (como naquela imagem de Jean Jullien), ainda sim, o amor na sua essência revive e surge das cinzas de tempos em tempos, atingindo corações solitários e melancólicos, como o de Theodore, trazendo todas as inquietações, dúvidas e sofrimentos que só quem ama sente, independente se essa pessoa é de carne e osso ou um sistema operacional. Uma das minhas escritoras magoadas favoritas, Florbela Espanca, em vários poemas reclama desse amor que toma de uma forma tão pesarosa todas as suas forças. Em um deles, especificamente, chamado “Inconstância” que, pessoalmente, ilustra perfeitamente o amor em Ela, diz que:

 

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

 

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

 

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

 

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

 

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TRAILER LEGENDADO:

 

 

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THE MOON SONG, POR KAREN O: MÚSICA INDICADA AO OSCAR DE MELHOR CANÇÃO ORIGINAL:

 

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assinatura maria

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